sábado, 19 de março de 2016

Saída de Emergência: Problematizando uma obra e a temática do suicídio



De início quando vi o trabalho na parede do hall, a primeira coisa que pensei foi, Ah não, mais um desses. Vários motivos me faziam não gostar daquela imagem. Duas figuras humanas feitas de fita adesiva pregadas na parede, uma masculina e a outra feminina. Uma corta uma das veias principais do pescoço, enquanto o outro cortava o pulso. Uma seta com a legenda Saída de Emergência encontrava-se do lado da faca em cada figura. Dentro das mesmas, linhas azuis e vermelhas das veias traçadas em giz acompanham o percurso da ferida infligida até o coração.




As formas das figuras com a representação das veias estão bem feitas, mas era o conteúdo que incomodava. Um ano atrás havia outro trabalho exposto no hall, Quebre em caso de emergência, que consistia de uma caixa pintada vermelho com itens sugeridos para o suicídio do espectador. Recordo dos comentários que ouvi dos alunos de outros cursos e até de alguns dos discentes de Artes também: que o trabalho banalizava o suicídio, e a imagem ficou criada dos alunos de Artes expressando seus desejos mórbidos da forma mais cliché possível, ou então que só queriam falar mal da religião ou da vida. Tanta indignação causara até que uma nota fosse colada ao lado da obra algum tempo depois de estar exposta, dizendo algo do tipo, Pra que isso?

E justamente nesta Quarta-Feira quando jantava no R.U do campus Petrolina, escutei comentários de dois estudantes de psicologia que diziam que o trabalho passava uma mensagem de banalização do suicídio. Isso me levou a pensar sobre o efeito daquela imagem, pois eu mesmo havia pensado nisso logo em seguida quando primeiro a vi. A ideia de colocar uma sinalização dizendo ‘saída de emergência’ como se estas partes do corpo fossem fáceis válvulas de escape para qualquer mal estar que a vida possa estar nos causando não me agradava. Além do que apenas reforçava a ideia dos alunos de Artes como sendo pessoas mórbidas. 

Em segundo lugar, pensei nas pessoas portadoras de distúrbio mental e transtornos do humor que poderiam tomar contato com essa bora, incluindo eu mesmo. Tendo passado por alguns períodos de depressão em minha vida, onde havia falta de animo para tudo e uma grande sensação de desgaste interno e de simplesmente querer desistir quando muitos ao seu redor querem que você continue, sei como não é fácil lutar contra tendências autodestrutivas. Sei também que em nosso curso há outros que são portadores de distúrbios mentais e pensei também em como essa imagem poderia impactá-los. A aparente banalidade com que a obra apresenta a questão do suicídio parece desconsiderar por total a luta pessoal que esses portadores têm para resistirem seus próprios impulsos destrutivos e permanecerem pessoas ativas e produtivas no mundo.

Essas foram as minhas primeiras impressões quando vi este trabalho, sem saber quem o tinha feito nem por qual motivo escolheu fazer o que fez.
                                                                                                                          
Tendo levantado todos esses questionamentos em mim, decidi dessa vez ir atrás e questionar meus colegas para saber por que trabalhos dessa natureza estavam saindo dos ateliers. A fim de escrever algo que não apenas critique a obra, mas que possa ser justo e oferecer pontos de vistas alternativos, resolvi falar com alguns colegas e com a própria criadora da obra.

Soube que o trabalho em questão foi feito por minha colega Daiane Marques, da turma de 2014.1, se não me engano. Tive a oportunidade de conversar com ela esta noite e saber o que a motivou a fazer essa imagem e o que quis passar com isso.

Coloco aqui alguns trechos da conversa que tive com Daiane, que sabendo da natureza desse ensaio consentiu que eu colocasse os comentários dela aqui:

O que inspirou você a fazer essa obra?

O trabalho foi para a disciplina de Tridimensional II. Assistimos a um filme chamado A Excêntrica Família de Antônia, que falava sobre os ciclos da vida e onde tinha um personagem que apesar de ser muito inteligente, ele se sentia solitário e não conseguia formar laços, e no fim ele opta por essa saída. A ideia para esse trabalho foi espelhado nesse personagem. Também tenho uma amiga que já tentou se suicidar duas vezes, então essas coisas me levaram a pensar nisso.

Ano passado havia outra obra exposta aqui no hall que se tratava de uma caixa de sapatos que havia sido pintada de vermelho, e dentro colocaram uns três itens – uma faca, uma tesoura e outro não recordo – e selaram com filme plástico. Ao lado colocaram uma placa ‘Quebre em caso de emergência’. Você viu esse trabalho?

Não cheguei a ver.

O que você quis falar com essa obra?

O propósito foi levantar essa questão do suicídio presente na sociedade: porque ele acontece e muitas vezes não é discutido entre as pessoas?

Você acha que conseguiu isso?

Não sei, não tenho certeza porque não recebi muitas respostas das pessoas, exceto de alguns colegas da minha turma.

Você é a favor do suicídio?

Sim, acho que devemos ter o direito de poder decidirmos sobre nosso corpo e sobre nossa vida e o que fazemos dela. As pessoas vão continuar fazendo isso mesmo sem poder ter assistência a formas mais humana e menos dolorosa. E se essa é a decisão que uma pessoa toma pra si, ela deveria poder fazer isso com assistência médica legalmente.

Já eu discordo. Sou a favor de uma pessoa acabar com sua própria vida apenas em casos de doenças terminais quando o paciente não quer prolongar mais seus dias em degeneração. Há uma clínica na Suíça que oferece assistência médica e psicológica a quem quer se matar, estando ou não em estado terminal. Eu penso que se está saudável, que a questão de tratar a mente em desequilíbrio e não desistir facilmente é importante. Quando estamos deprimidos, não conseguimos raciocinar ou avaliar a situação em que nos encontramos direito, por isso não acho certo que uma pessoa jovem e saudável faça isso com si. O problema de pessoas com depressão é muitas vezes não conseguir enxergar uma luz no fim do túnel, e isso é possível ser mudado dado a chance ao tempo, circunstâncias e condições da vida passarem.

Você chegou a pensar o que uma pessoa portadora de distúrbio mental pensaria ao ver a imagem?

Confesso que não cheguei a pensar totalmente nisso. Eu tinha mais em mente a história do personagem e o que passei com minha amiga, mas não cheguei a pensar como uma pessoa portadora reagiria.

O que mais você gostaria de dizer a respeito?

Eu acho que uma das outras questões é como você levantou, de, por exemplo, uma imagens dessas teria a capacidade de influenciar você a se suicidar se a vê-la? Até onde as imagens que vemos ao nosso redor nos influenciam e se sim, então qual é o verdadeiro poder das imagens?

Nas conversas que tive com colegas meus tanto do curso de Artes quanto de outras áreas, as opiniões foram mistas. Alguns não gostaram, geralmente citando alguns dos motivos já citados acima por mim ou alegando que a obra da forma como foi feita não transmitia ou acrescentava nada de bom. Outros viam a inventividade do trabalho, admitiam o seu tom meio negro (sem ofensa à etnia) e achavam engraçado. Até mesmo uma estudante portadora de distúrbio mental ao ser questionada disse que viu graça no trabalho tendo reconhecido a si mesma nele, ao mesmo tempo ciente das implicações mais sérias que a obra poderia causar.

Para concluir, em conversa que tive com outra colega, outro ponto em contrapartida foi apresentado. Uma visão mais neutra sobre o assunto:

O que você acha da obra exposta no hall?

Não acho nada em particular. Quem fez quis passar a mensagem que passou e fez isso da maneira que quis.

Você está dizendo que concorda com a obra, da forma como foi feita?

Eu estou dizendo que não tenho nada contra a obra. Porque você reagiu a essa obra, e não a outras como, por exemplo, ao do boneco crucificado?

Porque o trabalho toca numa questão pessoal para mim. 

Então, está vendo, se o trabalho mexe com você de alguma forma, então a obra conseguiu atingir a sua função. Há muito tempo o valor absoluto do belo deixou de ser a norma e objetivo das obras. Hoje um artista pode passar a mensagem da forma que quiser – a partir do que choca, sendo irônico, sendo feio até.

Mas e quanto aos possíveis efeitos que um trabalho feito dessa forma possa causar, como interpretar mal o que o artista quis dizer?

O artista tem o direito de dizer o que ele quiser. A expressão dele é livre. Não é culpa dele se o que ele quer passar chega de forma diferente no público, porque entre o que ele concebe e como o público recebe existe uma grande distância.

Por fim, não fecho conclusão alguma em torno desse trabalho. Ambíguo, assim como toda obra de arte, seja ela aplaudida ou vaiada, sempre estará aberta a um número indeterminado de discursos que podem ser levantados em torno dela.


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